Galeria Neupergama: Trinta e cinco anos depois… by José Pinharanda, 2015 (pt)

GALERIA NEUPERGAMA: TRINTA E CINCO ANOS DEPOIS...

Trinta e cinco anos depois, prossegue a aventura cultural iniciada por José Carlos Cardoso, pai da actual directora da Galeria Neupergama. A criação de uma Galeria de Arte em Portugal nunca deixou de ser um risco, assumido por quem ama a arte e os artistas e que com o seu trabalho comercial serve públicos generalistas e coleccionadores, serve a cultura. Os que o fazem por simples vontade de lucro fácil e rápido duram pouco e rapidamente desistem, mudam de ramo, vão ganhar dinheiro com bens de mais rápida circulação e fácil acumulação...

Mas abrir uma Galeria de Arte (e de arte contemporânea) fora dos grandes centros populacionais e financeiros representa um risco acrescido e uma coragem ainda maior – ao mesmo tempo, garante ao “aventureiro” um papel cimeiro no sistema cultural nacional, torna-o indispensável agente de descentralização num país onde o ensino artístico fraqueja e os museus de arte “inexistem”. Fora dos grandes centros mas trabalhando com nomes e obras centrais à história da pintura portuguesa, a Galeria Neupergama, no tempo do seu fundador e agora no tempo dos seus descendentes, cumpriu e continua a cumprir um papel decisivo de informação, divulgação e, deve dizer-se sem falso pudor, criação de riqueza (comercial e cultural).

Tendo sido sempre reconhecidos, pelos artistas, com quem trabalham num regime de cumplicidade e profissionalismo, e por um alargado público (local e nacional) de visitantes e coleccionadores, os proprietários da Galeria Neupergama tornaram-se elementos essenciais num movimento de descentralização cultural que poucos arriscaram. Um dia terá que se fazer a história desses centros locais e regionais de cultura, um dia terão os professores e estudantes universitários que esquecer os temas estafados e quantas vezes estéreis que prosseguem nos seus departamentos, focados nas grandes e fáceis celebridades e cegos à realidade nacional, ao tecido cultural nacional. Nesses novos e urgentes estudos o lugar e o papel da Galeria Neupergama vai revelar-nos toda a sua grandeza e ineditismo.

De facto, José Carlos Cardoso arriscava expor os que não vendiam ao lado dos que vendiam – e não se limitava a expor o que os artistas lhe traziam, falava com eles, interrogava-os sobre o que traziam, desafiava-os a fazer coisas diversas, celebrava-os quando os expunha. As inaugurações eram momentos festivos, dizia-se poesia, jantava-se longamente, vinha gente de longe para ver e ouvir Cesariny ou Relógio ou Lapa ou Cruzeiro... Ficou célebre uma gigantesca pintura cadavre-exquis (que veremos nesta exposição) com intervenções de Bual, Cesariny, Lima de Freitas e Relógio. Exposições individuais e colectivas ou simplesmente obras em acervo de Nadir Afonso, Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Lima de Freitas, Álvaro Lapa, João Vieira, Relógio, Cargaleiro, José de Guimarães, Teixeira Lopes, Hogan, António Areal entre muitos outros, construíram um discurso variado mas coerente que a morte do fundador não apagou. Isto porque, as recentes exposições de Mário Vitória e Cruzeiro Seixas, de Nikias Skapinakis, Jorge Martins, Manuel Casimiro e Sofia Areal ou de Pedro Calapez, Manuel Botelho e Rui Sanches, por exemplo, representam, por parte de Célia Cardoso, uma vontade de continuidade histórica mas também de alargamento do trabalho a nomes consagrados da arte portuguesa mais recente em busca de públicos novos e de renovação de gostos.

Que a aposta da Galeria Neupergama continue a ser ganha é condição de manutenção de alguma estabilidade na constituição de um tecido cultural local, condição necessária para evitar o destino fatal de desertificação que ameaça toda a realidade nacional. Ao apresentar os seus tesouros na galeria Municipal de Abrantes, a Galeria Neupergama de Torres Novas dá um passo importante na difusão do seu legado e no enriquecimento cultural da região.

João Pinharanda, 2015

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