No Elemento do Aceso by Manuel Silva Pereira, 2013 (pt)

NO ELEMENTO ACESO

Pedes-me palavras, ofereço sensações.
Primeiríssima, a da cor: forte, cheia e definida, espasmódica; meios-tons ausentes. Atrai de imediato o olhar, e centrifuga-o para o ponto nevrálgico, de mira, lá onde tudo surge a flutuar, ainda e sempre pela reinvenção constante da memória.
Em seguida, o gesto: largo e nunca avaro, generoso em si próprio, balético no modo como inscreve, no suporte escolhido, um renovado sopro de vida.

Textura, sim: para encorpar e dar relevo, profundidade, e um álibi de liberdade ao que fica aprisionado nos limites estreitos em que a imaginação, por força, se acomoda. A mão que tacteia o quadro, permissão por uma vez consentida, traz consigo a impressão digital e confirma que, por debaixo, se esconde uma vivência agitada, a obsessiva procura de equilíbrio, da harmonia e – sim, acredita - da felicidade.

O movimento, ainda: ininterrupto; impossível de conter, ou domesticar. Circular, ondulante, sinusoidal, a mão deixou de obedecer, deixa vestígios, pegadas, do ato único e singular da criação, pulsões irreprimíveis, mas que dão sentido ao todo e o animam, a anima (alma) que só a ele pertence.

Formas, enfim: vagamente orgânicas, recriação e síntese de memórias, sentimentos, emoções, registadas em pinceladas grossas de força, cor e intenção, ambíguas decerto, porém tecidas, entrelaçadas, com disciplina e absoluto rigor.
Azul, diz ela (...no branco que o suporta)!

Os melhores professores dizem-te “para onde olhar, não te dizem o que ver” (Trenfor); e o desejo, afirma o poeta (Ramos Rosa), era o de que este fosse um ofício “de intensidade e calma, e de um fulgor feliz. E que durasse, com a densidade ardente e contemporânea, de quem está no elemento aceso e é a estatura da água num corpo de alegria”.

Manuel Silva Pereira | Maio 2013

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