O Júbilo na Ponta dos Dedos by Ana Sousa Dias, 2014 (pt)

O JÚBILO NA PONTA DOS DEDOS

Roubo à Sofia a frase com que conclui o texto dela - “Afinando os meios para o júbilo”, e agora recomeço:

Afinando os meios para o júbilo, Sofia Areal mostra estas quatro dezenas de trabalhos do último ano e junta-lhes alguns anteriores para se sentir acompanhada. “Acompanhada comigo mesma”, contou-me no atelier, enquanto me mostrava os quadros.

Este conforto de que ela precisa é bem revelador da aflição ansiosa que uma nova exposição lhe provoca, sobretudo quando vem revelar um “novo fôlego”, isto é, mais palavras para o vocabulário que já a identificava. Não é uma ruptura e não deixamos de reconhecer Sofia Areal, mas o equilíbrio é agora outro e é intencional.

Diz Sofia que o que procura hoje não é uma questão de reconhecimento mas de afinidades, quer de carácter quer culturais. “Vai passando o tempo e e eu sinto que pinto não por terapia, como antes, mas porque há um fio condutor, toda uma história da arte a que pertenço. Com o meu vocabulário, tenho algo a dizer às pessoas com as quais tenho afinidades. Como disse Bertolt Brecht, as pessoas só amam aquilo que reconhecem. Para quê falar de árvores se elas existem? Sim, importa falar de árvores porque a natureza ficará mesmo depois de nós.”

Equilíbrio e intenção são duas das virtudes vitais que Sofia traz às paredes do Palácio Egito, numa sequência a que o talento do cenógrafo José Manuel Reis dá um sentido especial. Sete virtudes vitais que ela transmite através de sete cores, de formas, de texturas, de materiais que aqui reúne. Porque uma exposição é “como uma escultura em que nos construímos a nós mesmos”.

Há um problema quando Sofia e eu conversamos: encontramos-nos de vez em quando no atelier, começamos a falar da pintura dela e a coisa desata a disparar para todos os lados. Às tantas, é da nossa vida - das nossas vidas - que tratamos. Foi quase sempre assim, à exceção de situações formais de entrevista, e é como se ela estivesse a deixar-me sentir o pulso da pintora.

E assim vejo como ela está segura nesta exposição tão pensada, ancorada no apoio organizado do filhoMartim Brion. E que ela agora resumiu a um espaço quase minúsculo a casa onde mora, a sua retaguarda pessoal de descanso, o que significa que resolveu problemas, limpou complicações e concentrou a energia toda no grande atelier lisboeta. A firmeza dela pode oscilar entre um corte de cabelo radical, a ligeira atrapalhação de não ter à mão as roupas encaixotadas e depois o traço claro, sem medo dos acidentes, dos pingos de tinta que acompanham o movimento, a ocupar a superfície das telas sem medo dos vazios.

Neste novo fôlego, tão vital, Sofia faz uma declaração de seriedade, de peso de uma vida em que continua a pôr tudo em causa. Venceu a timidez em que tinha crescido, mantém-se solitária no ato de pintar, observa-se constantemente, procura explicar-se, e o que lhe sai das mãos vai revelando os estados de espírito, tão exigentes e tão livres ao mesmo tempo.

E agora aqui estão as obras, dispostas perante o nosso olhar e expondo a pintora numa transparência feliz. Melhor, numa transparência jubilosa, porque o júbilo que ela procura é mais do que a felicidade.

Ana Sousa Dias | Lisboa, 2 de setembro de 2014

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